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O primeiro disco de Bethânia que eu ouvi foi Imitação da Vida e ainda hoje é o meu preferido. Começa com uma introdução instrumental e, de repente, entra aquela voz de trovão

Ninguém sabe quem sou eu

Também já não sei quem sou

Eu sei bem que o sofrimento

De mim até se cansou

Na imitação da vida

Ninguém vai me superar

Aí ela já emenda com e do amor gritou-se escândalo e até o fim do disco ela vai falar só de amor. Eu já tive fases de cada uma daquelas músicas, mas sempre tem uma que fica martelando de tempos em tempos porque são poucas as músicas que falam da dúvida do amor. A velha briga chata do lado carente dizendo que sim e essa vida da gente gritando que não. E nem tô falando de Grito de Alerta, a música em questão aqui é outra, Mensagem. E Bethânia, que é Bethânia e não tem medo de ser ridícula – e talvez por isso mesmo não seja -, emenda com Todas as Cartas de Amor.

Mês passado eu fui no show de Bethânia e Omara, já sabendo todas as músicas que elas iam cantar. Aí, de repente, Bethânia resolveu mudar o roteiro e incluiu essa música e esse poema. Não é a mesma coisa que ver ao vivo, mas foi mais ou menos assim:

Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou
Com uma carta na mão
Ante surpresa tão rude,
Nem sei como pude chegar ao portão
Lendo o envelope bonito,
O seu sobrescrito eu reconheci
A mesma caligrafia que me disse um dia
“Estou farto de ti”

Porém não tive coragem de abrir a mensagem
Porque, na incerteza, eu meditava
Dizia: “será de alegria, será de tristeza?”
Quanta verdade tristonha
Ou mentira risonha uma carta nos traz
E assim pensando, rasguei sua carta e queimei
Para não sofrer mais

Todas as cartas de amor são ridículas,
Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas
Também escrevi, no meu tempo, cartas de amor como as outras, ridículas
As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas
Quem me dera o tempo em que eu escrevia, sem dar por isso, cartas de amor ridículas
Afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas

Porém não tive coragem de abrir a mensagem
Porque, na incerteza, eu meditava
Dizia: “será de alegria, será de tristeza?”
Quanta verdade tristonha
Ou mentira risonha uma carta nos traz
E assim pensando, rasguei sua carta e queimei
Para não sofrer mais

Nesse show, ela acabava aí. No disco, ela ainda continua, com um trecho de uma das cartas de amor ridículas de Fernando Pessoa:

“Quanto a mim, o amor passou. Eu só lhe peço que não faça como gente vulgar e não me volte a cara quando passe por si nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor. Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amaram um pouco quando meninos e, embora na vida adulta sigam outras afeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memória de seu amor antigo e inútil”.

Em algo em torno de três minutos Bethânia não só fode sua alma como bota a sua cabeça doida.

Sim, as cartas de amor têm de ser ridículas mesmo, porque o amor é – e, se não foi, deveria ser – muito maior do que qualquer jogo de palavras (por mais bem feito que seja). Então o melhor é escrever as coisas ridículas e mandar logo a carta.

Mas aí o amor acaba. Ou pelo menos a relação acaba. E vem uma carta de ódio. E aí, se essa carta é uma verdade tristonha, necessariamente as cartas anteriores tomam um ar de mentira risonha. Mas, Bethânia que me perdoe, não existe uma só pessoa que rasgaria e queimaria uma nova carta. Rasgar, pode até ser – algumas horas depois a pessoa fatalmente vai lá juntar os pedaços. Mas queimar sem ler, nunca. A gente sempre prefere sofrer mais.

E sofre mais porque tem de sofrer mesmo e porque é natural. O que se ganha tentando provar que não se está sofrendo? A admiração de alguém por algo que você finge que faz? Eu mesmo só quero esse tipo de admiração quando estiver em cima dum palco. Quando o sofrimento acaba, ele acaba. E nem avisa que acabou. Simplesmente foi-se embora e você só lembra dele quando vem outro, já que dois sofrimentos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo. Mesmo que dois dramas aconteçam concomitantemente na sua vida, você sempre escolhe um deles pra sofrer.

Portanto, uma vez limpado o pano de prato, você não tem que provar mais nada pra ninguém. E não deveria ter de provar nada desde o início. É muito chato viver pros outros. Eu não consigo ser assim nem quero aprender, mesmo que quebre a cara a vida inteira. Eu acho que escolhi ser ator por causa disso, pra ser bem interessante durante duas horas, e depois poder ser o que eu sou ou o que eu estou, sem me preocupar com o que vão achar de mim. É muito difícil. Tanto atuar quanto (principalmente, talvez) não se preocupar com o que os outros vão pensar. Mas acho que saio no lucro: é bem mais tranquilo atuar por duas horas – com todos os refletores, figurino e maquiagem a seu favor – e descansar as outras vinte e duas do que passar o dia inteiro tentando imitar a vida que querem que você tenha.

As divas concordam comigo. Maysa escreveu e Bethânia cantou:

Ninguém pode calar dentro em mim

Essa chama que não vai passar

Só digo o que penso

Só faço o que gosto

E aquilo em que creio

E se alguém não quiser entender e falar,

pois que fale

Eu não vou me importar com a maldade

De quem nada sabe

E se a alguém interessa saber

Sou bem feliz assim

Muito mais do que quem já falou

Ou vai falar de mim

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