adonai

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Por algum motivo obscuro, em alguma época do século passado, alguns psicólogos resolveram que seus pacientes doidos deveriam fazer teatro.

Isto posto, é bom que vocês saibam que, numa turma de um curso de teatro qualquer, pelo menos 50% são BASTANTE doentinhos e é preciso habilidade para lidar com eles.

Habilidade essa que eu não possuo.

Pois tem uma criatura lá que na primeira semana de aula já me intrigou. Era a semana de apresentação, cada dia um professor se apresentava e a turma inteira se reapresentava. À medida que os dias iam passando, a turma foi fazendo um resumo mais conciso da sua vida. Não essa menina.

Cada dia que passava, ela contava tudo aquilo e muito mais. No último dia, o depoimento dela chegou a meia hora contada de relógio. Parecia que ela já tava treinando pro Arquivo Confidencial do Faustão. Era tanta desgraça que Maria do Bairro perdia.

O ponto alto foi: “no meu curso de teatro anterior, todas as pessoas me odiavam e maltratavam. Na peça de formatura, uma menina pisou no meu pé no início do espetáculo e só foi tirar no final. Senti dor a peça inteira, e o diretor ainda parabenizou a menina”. Ou seja, ela sofre porque se doa demais para a arte. Nessa mesma semana, eu cantei a pedra para os coleguinhas mais chegados: fulaninha tem o caso de mania de perseguição mais agudo já registrado. Não percam por esperar do que nós seremos tachados nos próximos meses.

Não precisou nem vir o plural, no primeiro mês mesmo a menina já dizia que todos a odiavam e escorraçavam e de lá pra cá TODA AULA DO SÁBADO a menina chora dizendo que é excluída pela turma. Aliás, toda não, porque, há umas quatro semanas ela teve uma gripe. E de lá pra cá ela diz que perdeu a voz. E se comunica através de mímicas. E eu tenho que me controlar pra não gritar INTERNA INTERNA POR FAVOR. Problema na garganta assim de cisto, calombo, essas coisas, ela não tem. A professora de voz, esperta que é, jogou uma armadilha pra ela: hoje o primeiro exercício é fazer brrrrrr com os lábios e trrrrrr com a língua. Aí os braços e as mãos da menina começaram a se balançar, e a gente entendia que era “consigo não, professora, tô sem voz”. Aí a professora, que não é nenhum docinho de coco, gritou na cara da menina “MAS ISSO NÃO USA A VOZ, MINHA FILHA”. Pois não é que a doentinha, mesmo desmascarada, continua insistindo que não consegue emitir som de espécie alguma? Isso é que é fé cênica, Deus que me livre.

* Vi esse filme aos 12 anos, achei sensacional. Tenho medo de rever e achar uma bosta.

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