noitão

Toda sexta-feira é a mesma coisa, fico na maior indecisão do mundo: saio ou não? Eu tenho cinco horas de aula no sábado, e é a aula mais puxada, correria o tempo inteiro; logo, deveria estar disposto.

Essa sexta foi especialmente duvidante porque a) eu tinha um trabalho pra entregar no sábado que eu ainda não tinha feito e b) era dia do Noitão no HSBC que eu sempre tenho a maior vontade de ir e nunca vou.

Cheguei em casa às onze e vinte da noite naquelas vô-numvô-vô-numvô e acabei num fondo. Peguei meu textinho em espanhol pra traduzir e fichar e me tranquilizei, estava fazendo a coisa certa.

Até que chega Dani em casa só pra retocar a maquiagem e sair de novo. Pra Consolação. Achei que era um sinal divino de que eu deveria ir, sim. Disse a Dani que ia pegar uma carona com ela, fui no quarto, olhei o notebook e desisti. “Vou não, Dani, é muita irresponsabilidade”. “Tá”.

Quando ela abriu a porta, eu me dei conta de que não ia conseguir fazer trabalho nenhum, a cada frase escrita eu ia pensar “poxa, mas eu queria tanto”. Aí disse peraíperaíperaí deixa eu pegar minha chave e desci com ela.

Quando botei o pé na rua, de novo: “porra, mas já é uma e meia da manhã, eu já perdi o primeiro filme, será que eles deixam entrar?”. Dani, que é tipo aquele diabinho que fica no seu ombro quando a questão é sair de casa, soltou um “oxe, e é cárcere agora, é?”. “Não, cárcere é quando não deixam você sair, não deixar entrar é realmente um direito deles. Eu num vou não. Mas te deixo no ponto”.

Claro e óbvio que quando Dani entrou no carro eu entrei junto e acabei indo.

Quando eu cheguei lá, tinha logo um papel ofício escrito a caneta dizendo que Caótica Ana não ia passar. Mas, como o dia era realmente da dúvida, tinha seis outros filmes pra escolher. Quer dizer, seis filmes, mas eu só poderia ver dois durante a noite. Tortura pra mim. Achei que o melhor nesse caso era escolher o “filme surpresa”. Filme surpresa vírgula, porque quando eu pensei em voz alta “acho que vou ver primeiro o surpresa”, a mulher da bilheteria falou “ah, Blade Runner, então”.

Blade Runner, então, era o filme. Às duas da manhã, numa sala lotada de teens. Era teen que não acabava mais e teen duma faixa etária que há muito tempo eu não via, um pessoal 15 anos, todos em caravana, gritando e pulando. Escolhi a única fileira que não tinha teen, só uma menina estranha. Precavido que sou, sentei umas cinco poltronas depois dela, pra evitar qualquer contato. Não adiantou muito, porque logo depois entrou um velho de terno e gravata e sentou bem no meio de nós dois.

Coloquei os fones de ouvido: primeiro pra abafar a gritaria adolescente (rezando pra que eles parassem quando o filme começasse), segundo pro velho não vir falar comigo. Sem som ambiente, comecei a prestar atenção nas muriçocas dentro da sala. Eram muitas, e também voavam em caravana, uma nuvenzinha de muriçoca. Aí eu olho pro lado e vejo o velho estendendo a mão. A mão fica lá, parada no ar durante um tempo, até que uma muriçoca pousa na palma da mão dele. Ele olhando carinhosamente pra muriçoca. Eu já não consigo mais disfarçar meu espanto e passo a olhar descaradamente. A muriçoca enfia o chupador de sangue dentro da mão do velho, chupa o quanto quer, depois voa. E o velho guarda a mão no bolso do terno. Achei que os teens gritalhões eram mais saudáveis e mudei pra fila deles.

Começa o filme. Aparece o nome de Harrison Ford. UHUs geral, todo mundo acha que é o primeiro Indiana Jones. BLADE RUNNER aparece na tela. “Puta que pariu, já vi esse filme quinze vezes na televisão”, eu ouço atrás de mim. Mas depois, impressionantemente, todo mundo ficou quieto.

Eu me diverti já nos créditos. A cópia era tão velha que era daquele tempo em as legendas traduziam A FILM BY, ART DIRECTION, CINEMATOGRAPHY e o caralho a quatro. A cópia era tão velha que todas as cenas eram cheias de riscos. Tão velha que as cenas pulavam a cada dois minutos. Tão velha que a cena começava com o cara sacando uma arma e no segundo seguinte já tinha um andróide morto no chão, balbuciando a metade final de uma palavra que ninguém conseguiu ouvir.

Por ser uma cópia tão absurdamente velha, imagino que esta versão de Blade Runner seja a terceira. Porque Blade Runner é o maior caso de doidice cinematográfica que se tem notícia, existem CINCO versões do filme. A primeira nunca foi lançada nos cinemas, é a workprint. A segunda foi lançada só nos cinemas americanos. A terceira é a versão internacional do filme. Dez anos depois, foi lançada a versão do diretor – a única que saiu em VHS. E, ano passado, passou nos cinemas dos EUA e chegou em DVD aqui a versão do diretor remix. Eu não sei o que muda em cada uma delas. Também não sei se tenho paciência pra descobrir, porque achei o filme bem chatinho. É tudo lindo, bem filmado, os cenários são passantes etc. etc., mas não dá vontade de saber o que vai acontecer na cena seguinte. Não importa quantos andróides Harrison Ford vai caçar, nem qual é o objetivo, nem porra nenhuma. Resultado: fica um filme de ação sem ritmo e um filme “sério” sem estofo. Sem falar que aquela trilha 25 anos depois é foda de levar a sério.

Não parece uma mistura de Fernanda Young com Luiza Mariani?

(o noitão continua – ou não – no próximo post, depende do meu saco)

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6 Respostas to “noitão”

  1. daniarrais Says:

    caótica ana é um bom nome pra nossa faxineira, hum? hahah

  2. Leal Says:

    hahahaha iapoi! já já a cópia dela não vai ser exibida também

  3. . Says:

    hahaha ana ainda ta aprontando todas num apartamento do barulho?

    e po, ela é muito fernanda young.

    e ô ló, gosto tanto de blade runner.

    =*

  4. Leal Says:

    Tu deve ter visto uma das quatro versões restantes, então!

    E Ana, da última vez, fez tudo direitinho. Acho que veio a versão andróide dela…

  5. Rodrigo Says:

    Tu vai chegar no dia que minha casa vai virar um albergue caruaruense.

  6. Rodrigo Says:

    Mas nem era isso que eu queria falar.

    Eu ia só dizer que foi ótimo chegar em casa cansado, ligar o monitor e ler um post legal que alguém deixou aberto.🙂

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