hit the bottom and escape

Rolou histeria coletiva durante a semana e resolvemos alugar um ônibus pra ir pro show. Só que o ônibus saía da Vila Mariana, às três da tarde. Ontem teve festa aqui. E a casa tá o albergue da juventude, temos seis hóspedes. Todo mundo acordou um bagaço hoje e rolou filinha pro banho. Não dava tempo pra almoçar.

Chegamos na Vila Mariana, comemos no McDonalds mais nojento ever (pra vocês terem uma ideia, eu não consegui terminar o sanduíche). Chegamos lá e vi que não tinha sentido nenhum ter alugado um ônibus, todo mundo poderia ter ido de ônibus normal e voltado de táxi que saía mais barato. Mas ok. Começamos a entrar na Chácara e uma fila de gente enorme, os seguranças gritando pra andar, se o figurino (nosso e deles) fosse um pouquinho diferente juro que podia ser uma reconstituição da chegada da galera em Auschwitz.

Show do Los Hermanos. Eu lembro que num ano aí (2004?) eu vi quatro shows do Los Hermanos com um espaço de no máximo dois meses entre um e outro e minha cota estourou pra sempre. Não me emociono nem um pouco, mas foi divertidíssimo porque eu passei todo o show tirando onda e irritando as pessoas ao meu redor. Desculpa aí, pessoal, mas foi a única maneira que eu encontrei pra me entreter.

Começou a chover. A capa de chuva esquentava demais e tinha uma logística complicada, não consegui achar as mangas. Desisti da capa de chuva. A chuva passou. O show acabou.

Meu joelho começa a pedir penico, uso a capa de chuva como tapete pra eu sentar no chão. Começa Kraftwerk e a superlotação. As pessoas não tavam nem aí pro Kraftwerk, todo mundo queria era guardar lugar pro Radiohead. Levanto do chão e vou ficando cada vez mais irritado porque nesse momento eu já tava em pé há três, quatro horas e aqueles quatro caras fazendo todo mundo de imbecil atrás de notebooks e exibindo screensaver no telão. Tome no cu quem disser que o show foi bom. As músicas são maravilhosas, mas nem altas o bastante elas tavam.

Acaba Kraftwerk. Aí começa o empurra-empurra, me jogam dali, me jogam de lá, nessa hora eu já tava rindo sem parar porque era a única alternativa. Um calor humano (no pior sentido), um bafo quente, gente peidando e eu rindo. It can’t get any worse. Como não? Quinze minutos antes do show começar, minha cabeça começa a doer um pouco e comento com Pessoa (que não vai ser identificada porque a bichinha ficou com vergonha, mas não tem que ter vergonha porque acontece nas melhores casas do ramo) “ai, minha cabeça”. “Olha, não inventa de passar mal não, hein?”. Certo. O negócio vai piorando, mais gente, mais gente onde não cabia mais ninguém. Aí Pessoa me diz “Leal, acho que não tem futuro ficar aqui, vamo mais pra lá”. Bora.

Pessoa desmaia na minha frente. Eu tento segurar pelos braços mas já tinha ido. Pessoa é reanimada. Levanta e começamos a tentar sair. Pessoa desmaia de novo. Amiguinhos já se dão conta de que a situação é realmente complicada e começa toda uma operação de tentar tirar Pessoa dali, mas era algo rigorosamente impossível, a multidão não tinha fim e ninguém queria afastar um milímetro pra deixar alguém que tava sendo carregado passando mal SAIR dali. Pessoa desmaia mais três vezes durante o trajeto, numa delas recebe um grito de FOLGAAAADA! quando cai no chão. Amor ao próximo é isso aí.

Conseguimos chegar num lugar em que o espaço entre os corpos era maior que cinco centímetros, o ar já circulava melhor e Pessoa começa seu processo de recuperação, enquanto Thom Yorke começa o show. Aí nessa hora eu confesso que passei a me preocupar menos com Pessoa e até não achei tão ruim o mal passamento porque finalmente eu consegui VER alguma coisa do palco.

O show acaba. Começa uma romaria pra se sair dali. Trinta mil pessoas descendo uma ladeira pra ir embora. Pessoa, já devidamente recuperada (incluindo aí a chatice elegante que lhe é peculiar), fala que “pelo menos em Olinda tem música nessas horas”. Eu não sei se música melhora ou piora uma descida de ladeira com 30 mil pessoas. Vou descendo e repetindo que nunca, jamais irei pra um show desses de novo. E repito isso até chegar em casa (que demorou, viu? eu cheguei em casa não faz nem uma hora. O ônibus não tinha “autorização pra trefegar na Paulista, na Rebouças, na Brasil”, ou seja, ele não tinha autorização pra ir de um bairro de São Paulo a outro, praticamente. Descemos no Paraíso – ha! – e pegamos um táxi que insistia em colocar sertanejo no último volume).

MAS…

Estou aqui escrevendo e fazendo escalda-pés com SOS PÉS da OX. E aí eu digo que se tivesse outro show do Radiohead amanhã, eu ia. Porque eu não consigo parar de lembrar do show, não consigo ir deitar pra dormir, fico reouvindo as músicas na cabeça, Thom Yorke é um negócio absurdo, as luzinhas tão piscando nos meus olhos ainda. É tão bom que eu, na verdade, não tenho muito o que falar porque eu não sei como falar. Como eu sei reclamar, fiquem aí com as minhas reclamações e eu vou indo dormir com o show em loop na minha cabeça.

No matter what happens now
I shouldn’t be afraid
Because I know today has been
The most perfect day I’ve ever seen

4 Respostas to “hit the bottom and escape”

  1. cris Says:

    eu JURO que só li teu post agora, depois que acabei o meu. e eu só bostei reclamação. alguém disse, né? que a gente é amigo porque a gente só sabe reclamar.

    mas eu gosto tanto de reclamar contigo :~~

    (também não consegui dormir. minhas carótidas pulsando eternamente, chega minha cabeça dava uma balançadinha pro lado. mifudi muito hoje. mas é isso, né. é isso.)

  2. flavia Says:

    essas Pessoa… sei não.

  3. Leal Says:

    Também adoro reclamar contigo :**
    E tu, que é médica, ainda ajuda as Pessoa na hora do sufoco hahaha

  4. ou seu dinheiro de volta « Somatopsicopneumatico’s Weblog Says:

    […] grita FOLGADA!!!!!!!!!!! pra […]

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